10 exemplos de cordel para conhecer literatura popular

 

1. A seca do Ceará, de Leandro Gomes de Barros

Seca as terras as folhas caem,
Morre o manada sai o povo,
O vento varre a planície,
Rebenta a seca de novo;
Cinco, seis milénio emigrantes
Flagelados retirantes
Vagam mendigando o pão, Acabam-se os animais
Ficando limpo os currais
Onde houve a geração.

Não se vê uma folha virente
Em todo aquele sertão
Não há um ente d’aqueles
Que mostre satisfação
Os touros que nas fazendas
Entravam em lutas tremendas,
Hoje nem vão mais o campo
É um sítio de amarguras
Nem mais nas noites escuras
Lampeja um só vagalume.

(…)

Sobre o cordel: estas são as duas primeiras estrofes de “A seca do Ceará”, cordel formado por 18 estrofes e que tem porquê tema a verdade da seca no sertão nordestino.

Sobre o responsável: Leandro Gomes de Barros (1865 – 1918) era paraibano. Começou a redigir cordel com 24 anos e ganhou a sua vida com eles. Foi considerado o “rei dos poetas populares” do seu tempo.

2. ABC do Nordeste, de Patativa do Assaré

A — Ai, porquê é duro viver
nos Estados do Nordeste
quando o nosso Pai Etéreo
não manda a nuvem chover.
É muito triste a gente ver findar o mês de janeiro
depois findar fevereiro
e março também passar,
sem o inverno debutar no Nordeste brasílio.

B — Berra o manada impaciente
reclamando o virente pasto,
desfigurado e arrasto,
com o olhar de penitente;
o quinteiro, descrente,
um jeito não pode dar,
o sol ardente a queimar
e o vento possante soprando,
a gente fica pensando
que o mundo vai se concluir.

C — Caminhando pelo espaço,
porquê os trapos de um lençol,
pras bandas do pôr do sol,
as nuvens vão em fracasso:
cá e ali um pedaço
vagando… sempre vagando,
quem estiver reparando
faz logo a confrontação
de umas pastas de algodão
que o vento vai carregando.

D — De manhã, muito de manhã,
vem da serra um agouro
de gargalhada e de pranto
da feia e triste cauã:
um grupo de ribançã
pelo espaço a se perder,
pra de inópia não morrer,
vai detrás de outro lugar,
e ali só há de voltar,
um dia, quando chover.

Sobre o cordel: estas são as quatro primeiras estrofes de “ABC do Nordeste”, cordel formado por 24 estrofes. Cada uma delas começa com as 23 letras do velho alfabeto, de A a Z, e tem mais uma estrofe que finaliza o cordel. Levante poema tem porquê tema a dura verdade da seca e as suas consequências.

Sobre o responsável: Antônio Gonçalves da Silva, sabido porquê Patativa do Assaré (1909 – 2002) era cearesense. Considerado um dos maiores poetas populares brasileiros, aprendeu a ler com 12 anos e com 13, escreveu os seus primeiros versos.

3. Nas asas da leitura, de Costa Senna

Neste Cordel falarei
sobre meu melhor colega,
que me ajuda a encontrar
lazer, trabalho, abrigo.
Desde meus primeiros anos,
ele é secção dos meus planos
e segue sempre comigo.

Leio livro em minha leito,
em ônibus, metrô ou trem,
em navio ou avião,
ou mesmo esperando alguém.
Leio para o povo ouvir.
Leio para transmitir
a riqueza que ele tem.

Sobre o cordel: nascente cordel fala sobre a leitura, tema ligado à ensino, assim porquê muitos outros poemas deste responsável.

Sobre o responsável: Costa Senna é um cordelista do nosso tempo, além de cantor e ator. Cearesense, foi para São Paulo em 1990, levando com ele a literatura de cordel.

4. A greve dos bichos, de Severino Milanês da Silva

Muito antes do Dilúvio
era o mundo dissemelhante,
os bichos todos falavam
melhor do que muita gente
e passavam boa vida,
trabalhando honestamente.

O diretor dos Correios
era o doutor Jaboty;
o fiscal do litoral
era o sorrateiro Siry,
que tinha porquê ajudante
o malandro Quaty.

O rato foi nomeado
para encarregado aduaneiro,
fazendo muita “moamba”
ganhando muito moeda,
com Camundongo ordenança,
vestido de marujo.

O Cachorro era cantor,
gostava de tocata,
andava muito cintado,
de colete e de gravata,
passava a noite na rua
mais o Besouro e a Barata.

Sobre o cordel: estas são as quatro primeiras estrofes de “A greve dos bichos”, cordel extenso formado por mais de 60 estrofes e que tem porquê tema o cotidiano do trabalho, mas feito por animais em vez de pessoas.

Sobre o responsável: Severino Milanês da Silva (1906 – 1956/1967) era pernambucano e um poeta de gabinete, ou seja, não cantava os seus versos, somente os escrevia. Sua obra mostra influência do cordelista Leandro Gomes de Barros.

5. A corrida da vida, de Bráulio Bessa

Na corrida dessa vida
é preciso entender
que você vai rastejar,
que vai tombar, vai suportar
e a vida vai lhe ensinar
que se aprende a caminhar
e só depois a percorrer.

A vida é uma corrida
que não se corre sozinho.
E vencer não é chegar,
é aproveitar o caminho
sentindo o cheiro das flores
e aprendendo com as dores
causadas por cada espinho.

Aprenda com cada dor,
com cada desengano,
com cada vez que alguém
lhe partir o coração.
O porvir é obscuro
e às vezes é no escuro
que se enxerga a direção.

(…)

Aí sim, lá na chegada,
onde o término é evidente,
é que a gente percebe
que foi tudo de repente,
e aprende na despedida
que o sentido da vida
é sempre seguir em frente.

Sobre o cordel: estas são as três primeiras e a última estrofes de “A corrida da vida”, cordel formado por 10 estrofes. Ele tem porquê tema a vida e a rapidez com que ela passa, motivo pelo qual precisa ser aproveitada.

Sobre o responsável: Bráulio Bessa é cearense e nasceu em 1985. Fã do cordelista Patativa do Assaré, começou a redigir seus versos com 14 anos. Ficou muito sabido no Brasil quando ganhou um quadro fixo num programa da rede Mundo.

6. Redes sociais, de Bráulio Bessa

Lá nas redes sociais
o mundo é muito dissemelhante,
dá pra ter milhões de amigos
e mesmo assim ser carente.
Tem like, a tal curtida,
tem todo tipo de vida
pra todo tipo de gente.

Tem gente que é tão feliz
que a vontade é de excluir.
Tem gente que você segue
mas nunca vai lhe seguir.
Tem gente que nem disfarça,
diz que a vida só tem perdão
com mais gente pra ver.

(…)

Mudou até a rotina
de quem tá se alimentando.
Se a comida for chique,
vai logo fotografando.
Porém, repare, meu povo:
quando é feijoeiro com ovo
não vejo ninguém postando.

Sobre o cordel: estas são as duas primeiras e a quarta estrofes de “Redes sociais”, cordel formado por 12 estrofes. Ele tem porquê tema as redes sociais e a vida de ilusão que ela pode trazer para alguns.

Sobre o responsável: Bráulio Bessa é cearense e nasceu em 1985. Fã do cordelista Patativa do Assaré, começou a redigir seus versos com 14 anos. Ficou muito sabido no Brasil quando ganhou um quadro fixo num programa da rede Mundo.

7. Saias no cordel, de Dalinha Catunda

A mulher abriu caminhos
Difíceis de percorrer
Pôs os pés na estrada
Pra provar seu saber
Foi muito grande sua luta
Mas permanecer sempre oculta Impossível conceber.

Durante muito tempo
Fomos só inspiração
Musa que os poetas
Traziam no coração
Sonhávamos ter um dia
Nossa popular verso
Com farta publicação.

Não estou insinuando
Que a mulher não atuava
Ela já fazia seus versos
Exclusivamente não publicava
Mostrava sua alegria
Nas rodas de cantoria
E ovação conquistava.

(…)

Mas tudo modificou
Hoje a coisa é dissemelhante
O cordel está em sarau
E a mulherada presente
Varão agora é parceiro
Até virou companheiro
No cordel e no repente.

Sobre o cordel: o cordel “Saias no cordel” tem porquê tema o espaço da mulher na literatura de cordel.

Sobre o responsável: Maria de Lourdes Aragão Catunda, conhecida porquê Dalinha Catunda (1952), nasceu no Ceará, mas foi para o Rio de Janeiro, onde começou a redigir verso. Dalinha conquistou o seu lugar na literatura de cordel, abrindo espaço para outras mulheres cordelistas.

8. Entre o paixão e a punhal, de José Camelo de Neto Resende

O paixão quando se alberga
no peito do rico ou pobre
se torna logo um guerreio
com penacho de cobre
e só obedece a honra
porque a honra é mais superior

Se o paixão é soberano
a honra é sua grinalda
portanto um paixão sem honra
é porquê um navio sem proa
é porquê um rei destronado
no mundo vagando a toa.

Sobre o cordel: o cordel “Entre o paixão e a punhal” tem porquê tema o paixão, o sentimento mais frequente na verso.

Sobre o responsável: José Camelo de Neto Resende (1885 – 1964) era paraibano. Começou a redigir na dez de 20 e seus poemas destacavam-se pela sublimidade da métrica e das rimas. É considerado um dos maiores cordelistas brasileiros.

9. O Pequeno Príncipe em cordel, de Josué Limeira

Logo recebi conselhos
Pra não traçar jiboias:
— Dedique-se à geografia
Ou até mesmo à história,
Ao cômputo e à gramática,
Deixe dessa paranoia.

Escolhi uma profissão
E fuim enfim, pilotar.
Descobri no avião
Que meu sonho era voar.
A geografia me ajudou
A saber onde pousar.

Eu consigo, num relance
Notabilizar a antiga China.
Ao var no Arizona
Sua venustidade me fascina.
Ser piloto é um sonho
Que minha vida ilumina.

Sobre o cordel: estas são algumas estrofes do livro O Pequeno Príncipe em Cordel, uma transposição do clássico da literatura, O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry.

Sobre o responsável: José Limeira nasceu em 1965 em Recife e é formado em Gestão de TI. Com o livro O Pequeno Príncipe em Cordel foi finalista do Prêmio Jabuti em 2016.

10. Paixão de uma estudante ou O poder da perceptibilidade, de João Martins de Athayde

A venustidade e o paixão
tem poder integral,
na terreno todo mortal
cada qual rende o seu letrado
pagando a estes dois Deuses,
um verdadeiro tributo.

Mas as vezes a venustidade
centena sua soberania,
perde na presença de a inteligencia
a sua supremacia:
fica o paixão vacilando,
nesta tremenda porfia

Leitores a inteligencia
enaltece todo ser
inda sendo um pestilento
todo mundo quer lhe ver
pois o maior dos tesouros,
é o que se labareda saber.

Sobre o cordel: o cordel “Paixão de uma estudante” ou “O poder da perceptibilidade” tem porquê tema o paladar pelo conhecimento.

Sobre o responsável: João Martins de Athayde (1880 – 1959) era paraibano. Com 18 anos, publicou o seu primeiro livrete. Foi um simpatizante de Leandro Gomes de Barros.

Leia também: Literatura de Cordel: o que é, origem, características e poemas

Márcia Fernandes
Escrito por Márcia Fernandes

Professora, produz conteúdos educativos (de língua portuguesa e também relacionados a datas comemorativas) desde 2015. Licenciada em Letras pela Universidade Católica de Santos (habilitação para Ensino Fundamental II e Ensino Médio) e formada no Curso de Magistério (habilitação para Instrução Infantil e Ensino Fundamental I).

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